A pré-história da Tribo
No dia 1º de maio de 1999, alguns artistas e militantes dos movimentos cultural
e sindical realizaram um sarau no Bafafá Cultural, em Taguatinga. Foram
apresentados números musicais e recitais de poesia. O evento ocorreu de 19 às
22h. Depois, entre um gole e um petisco, ficamos nos conhecendo melhor e ouvindo
a música de Alexandre Prates.
Conhecemos lá alguns dos atuais organizadores e artistas que têm se apresentado
em nossa série de saraus. Surgiram idéias de projetos a realizar. Sonhamos...
Falamos que nos encontraríamos sempre em eventos como aquele que passaríamos a
produzir mensalmente. E, pra selar o encontro e começar a definir o perfil do
grupo, foi lido e assinado lá o Manifesto Cultural que reproduzimos a seguir.
Na mesma folha do Manifesto, convocamos uma reunião para o dia 15 de maio, no
Teatro da Praça. A reunião aconteceu e nesse dia criamos o Grupo Manifesto.
Elegemos coordenação e definimos que realizaríamos saraus, oficinas artísticas e
discussões. O grupo não vingou. Passamos muito tempo sem realizar nada juntos.
Ficou o desejo de pessoas que se encontram e se perdem novamente. Pessoas que
finalmente descobrem sua tribo, mas deixam que ela se desfaça entre os afazeres
da vida. Pessoas que sonham em ser artista, mas consomem suas vidas correndo
atrás de um emprego. Mas ficou o desejo. E tanto ficou que alguns de nós, sempre
que nos encontrávamos, voltávamos ao assunto. Até que, mais de um ano depois,
apresentamos a idéia ao pessoal do Celeiro das Antas, da Vídeo Avesso, do Boi
Jatobá e nos reunimos e marcamos nosso sarau no Botiquim Blues para o dia
28/09/2000. Assim começou a série que inicialmente chamávamos de Sarau do
Quintal e depois, quando criamos esta revista, passamos a chamar de Sarau da
Tribo.
Então aquele dia 1º de maio de 1999 foi o dia do sarau de sonhadores que
derrapam nas curvas, tropeçam nos obstáculos, apanham da vida, mas continuam
sonhando e lutando até que um dia acabam surpreendendo os céticos. Foi a
pré-história de nossa Tribo das Artes.
Assim como realizamos nossos pequenos sonhos depois de inúmeras tentativas,
também vamos realizar os médios e grandes: um dia levaremos nossa arte a todo o
país e um dia acabaremos com a exploração.
Se precisar, tentaremos a vida inteira.
Primeiros Saraus
Na próxima quinta feira (26/10), a partir das 21 h, Taguatinga terá outra
pequena amostra da produção cultural Brasiliense no Botiquim Blues. Os grupos
Celeiro das Antas, Estrela Jovem, Vídeo Avesso, a Oficina Pedagógica Alternativa
e o Núcleo de Cultura do PT de Taguatinga estão realizando o II Sarau do Quintal
com o objetivo de aproximar artistas de várias linguagens entre si e com o
público.
O primeiro Sarau dessa trupe, ocorrido em 28/09, superou todas as expectativas.
A programação de qualidade foi essencial para assegurar o grande interesse do
público e o clima de festa. Apresentaram-se: Encantadores de Rua (grupo de
palhaços); Celeiro das Antas – Ato Cofessional nº 5 (teatro); Mestre Zezito
(teatro de boneco); Diró Nolasco, Ronaldo Alencar, Gilson Alencar, Jorge Som,
Rodrigo, Vítor Barbosa e o trio Chicão, Renato Matos e Soró, (música); Cacá,
Isolda Marinho e Paulo Kauim (poesia); José Ruiter (causos rimados) Téo Gomes,
Geraldo e Bumba-meu-Boi (música e dança). Além dos espetáculos e intervenções,
foram exibidos em telão os curtas Ilha das Flores e O Menino, a Favela e a Tampa
de Panela.
Houve ainda exposição de telas da artista plástica Ines Melo e de brinquedos
populares da Oficina Pedagógica Alternativa. Também foi lembrada, com leitura e
distribuição de recortes de jornais, a história da Associação de Arte e Cultura
de Taguatinga, que agitou a cidade nos anos oitenta com suas Feiras e Semanas de
Arte e Cultura. Por fim, foi distribuído nas mesas um Manifesto Cultural editado
em 1º de maio de 1999 por agitadores culturais da cidade. O resultado dessa
miscelânea e a íntegra do Manifesto serão publicados num jornal do evento que
será distribuído ao público do dia 26/10.
A programação da próxima edição só é divulgada na véspera, mas o público pode
contar com o mesmo nível de qualidade. A maior parte dos artistas da primeira
edição já confirmou que irá para prestigiar e, se houver brecha, têm mais
trabalhos para mostrar. No II Sarau do Quintal, os realizadores e o público
estarão lançando um olhar crítico sobre as artes. Posteriormente, pretende-se
discutir o papel das artes na compreensão que temos do mundo e nas lutas para
superar as injustiças e o modelo de desenvolvimento que as aprofundam.
O ingresso é uma colaboração de R$ 2,00 para a edição do jornal de cada evento.
Quem quiser garantir sua entrada pode adquiri-lo antecipadamente no Botiquim ou
com os grupos organizadores. Quem chegou muito atrasado no mês passado acabou
não conseguindo entrar.
Local: Botiquim Blues – CNB 7, lote 3, Taguatinga-DF – Fone 352-3031
Data e hora: 26/10/2000 às 21 h
Sarau do Quintal*
E eis que temos novidade na praça, ou melhor, no bar. Podemos encontrar teatro,
música, cinema, exposição de artes plásticas, oficina de brinquedos pedagógicos,
poesia e até causos. Mas onde é que se dá todo este furdunço? Endereço: Botiquim
Blues, em Taguatinga. É o Sarau do Quintal, promoção dos grupos Celeiro das
Antas, Estrela Jovem, Oficina Pedagógica Alternativa, Vídeo Avesso, Botiquim
Blues e Núcleo de Cultura do PT de Taguatinga. A idéia é reacender o movimento
artístico na cidade. E, como “segundas intenções”, puxar o debate sobre um
projeto de política cultural. O evento faz sucesso: casa cheia, velhos amigos
artistas se reencontrando e um público entusiasmado diante da qualidade dos
espetáculos.
A Companhia Artcum representou o folclore nordestino no I Sarau (28 de
setembro). O bumba-meu-boi apresentado é o caminho seguido desde a formação do
grupo, há cinco anos. Apoiam-se num consistente trabalho de pesquisa para a
realização de sua arte. O Artcum também tocou forró e contagiou o público.
Quando começaram a tocar o forró pé-de-serra, todos caíram na dança.
Ruiter não poderia faltar. Este cabra tem longa trajetória: foi o primeiro
presidente da Associação de Arte de Taguatinga. Atualmente, junto com mestre
Zezito, coordena a Oficina Pedagógica Alternativa que produz brinquedos
populares, fantoches e jogos infantis. Brindou-nos com um causo: um poema
matuto. Distribuiu matérias de 1983 divulgando a I Semana de Arte e Cultura de
Taguatinga. Nossa história foi relembrada com orgulho.
Diversidade e riqueza cultural com destaque para a mais típica arte popular:
estes são elementos que compõem o Sarau e são responsáveis pela sua
desenvoltura. Reunir aqueles que fizeram, fazem e ainda podem discutir,
construir e implementar uma política cultural.
II Sarau do Quintal
O II Sarau do Quintal (26 de outubro), impactado pela grande ressonância do
primeiro, teve ainda mais público. Como mestre de cerimônia revesaram-se o poeta
Carlos Augusto, o Cacá, e Marta do Celeiro das Antas. Em relação ao primeiro, a
novidade foi a circulação de fichas de inscrições de artistas para os próximos
eventos: a idéia é evitar a "panelinha". Nas paredes do bar, exposição do
artista plástico Ramom Temporim. Em outro ambiente, sapatos da artesã Teresinha.
Ninguém pode reclamar da falta de representatividade de ramos da arte.
Encerrando a noite, o grupo Casa de Farinha fez sua estréia e levantou a galera
com suas músicas regionais, extraídas da mais profunda raiz do povo. Cantando
com instrumentos típicos - zabumba, pandeiro, matraca, triângulo – tiveram de
repetir a apresentação por insistência dos ouvintes. O trabalho destas meninas é
fruto de pesquisa nos nossos rincões, resgatando aquelas cantigas de autoria
desconhecida, mas que norteiam o dia a dia das populações interioranas.
III Sarau do Quintal
O III Sarau do Quintal (30 de novembro) deu lugar aos grupos que se inscreveram
no “Quebrando a Panelinha”. O destaque foi o Grupo Natyê, de Ceilândia com
repertório popular de alto nível e a brincadeira de mamulengos de Chico Simões.
Também contou com artes plásticas, dupla de viola caipira, dança de salão,
teatro e poesia.
Um banho de cultura. A verdadeira representante de nossas raízes. É esta forma
de expressar a arte que pretendemos divulgar e trazer a discussão para quem
comanda os órgãos públicos afeitos ao tema. O Sarau do Quintal é apenas a
exposição do que queremos que chegue às diversas camadas da população, fazendo
vê-la quão rico é nosso povo, nossas tradições, nosso passado e presente. O fim
é evitar a perda da identidade cultural. Daremos passos adiante neste intuito.
O local do evento não poderia ser mais apropriado, pois, como discursou Paulo
Kauim, "Taguatinga sempre foi vanguarda". Bola pra frente, então, que o
movimento pretende criar asas e responder às expectativas dos artistas.
* Nos primeiros saraus da Tribo usávamos o nome “Sarau do Quintal”. Após a
publicação da primeira revista, passamos a usar o nome Tribo das Artes. Esta
matéria foi publicada na revista Tribo das Artes nº 1, lançada no quarto sarau,
em dezembro de 2000.