A independência ainda é pendência

 

Por Carlos Augusto Cacá

 

1.                    Em "História da Riqueza do Homem", Leo Huberman revela como a burguesia acumulou fortuna. Foram meios bastante heterodoxos, como pirataria, tráfico de escravos, ouro, prata, guerras e saques das riquezas naturais de povos desarmados. Os mais honestos exploravam atividades produtivas nas colônias ou praticavam o comércio com terras longínquas. Seus trabalhadores eram, portanto, escravos ou marinheiros que lançavam-se à sorte. Em média, morria mais da metade da tripulação de cada viagem. Os mais honestos, convenhamos, viviam da morte de seus trabalhadores.

2.                    O enriquecimento dos piratas, traficantes, mercenários e saqueadores (e também dos honestos que viviam da morte de seus trabalhadores) fez surgir uma nova classe social: a burguesia. Uma classe revolucionária nos métodos de trabalho e na política. Uma classe que teve inteligência para acabar com a podridão da Monarquia e implantar outra, à sua imagem e semelhança.

3.                    Cabe aqui uma explicação sobre o que é “colônia”. Na verdade, eram terras de povos aos quais não se reconhecia o direito de tê-las. Os europeus eram donos da Europa, mas as tribos da África ou da América não podiam ter autoridade sobre os territórios que ocupavam. Afinal, esses povos nunca foram aos cartórios internacionais pedir o registro de suas terras. Por isso, os europeus puderam invadi-las e registrá-las como propriedades européias. Com isso, tudo o que se produzia ou extraía da colônia pertencia aos europeus, que primeiro registraram o direito de explorá-la.

4.                    Mas isso foi lá pelo período colonial. Depois, a burguesia aprimorou os meios de expropriação das riquezas longínquas. Deixou de reivindicar autoridade sobre as terras. Concedeu a “independência” em troca de promessas de pagamento de dívidas acumuladas durante os anos de colônia. Quem passou séculos sendo explorado virou agora devedor de fortunas impagáveis. As dívidas tornaram-se o novo mecanismo para justificar a extração das riquezas das ex-colônias. Pode até ser desonesto isso, mas, pelo menos, é moderno, inteligente e realmente criativo.

5.                    A admirável inteligência burguesa criou fórmulas financeiras de uma magia fenomenal. Quanto mais as ex-colônias lhes pagam, mais lhes devem. Quanto mais pobre seu povo, mais remetem fortunas para os países ricos. Hoje, já devem tanto que precisam ser orientadas pelos credores. A dívida tornou-se também um mecanismo de controle do desenvolvimento das ex-colônias. Por meio de acordos de refinanciamento, obrigam-nos a mudar nossas leis para garantir o pagamento da dívida mesmo que falte dinheiro para pagar professores, médicos ou outros prestadores de serviço público. Tamanho é esse poder que, nas eleições de 2002, o FMI obrigou os candidatos à presidência a assinarem um termo de compromisso com o Fundo. Quem não assinasse não poderia vencer as eleições. Eis a bela modernidade burguesa.

6.                    Mas, mesmo com as inovações, há quem zombe e proteste. Há rebeldes que não querem se submeter de forma alguma. Para conter esses terroristas, a burguesia vê-se obrigada a aplicar os velhos mecanismos: bombardeios, controle militar, nomeação dos governos. Só que com uma nova guerra. Antigamente, um país ameaçado colocava seu exército na fronteira para defender o patrimônio dos que tinham patrimônio. Hoje, os ricos têm armas que podem atravessar continentes e atingir alvos com precisão cirúrgica. Só porque não querem é que não distinguem militares de civis, nem adultos de crianças. Destroem cidades inteiras sem se importar com hospitais ou quartéis, escolas ou palácios. Aniquilam um país inteiro e deixam os sobreviventes entregues aos escombros.

7.                    É uma guerra entre ricos e os que se lhes atravessam o caminho. Se hoje querem petróleo e controle de áreas hostis, amanhã precisarão de água e terra fértil. E ninguém estará seguro. Principalmente se esse ninguém vive submetido aos modernos e quase invisíveis mecanismos de expropriação e de controle político.

 

 

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